Uma análise do poema "Tecendo a manhã" de João Cabral de Melo Neto

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Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

    

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

*Autor: João Cabral de Melo Neto

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Comentando:

1) O poema começa com uma paráfrase do provérbio “uma andorinha sozinha não faz verão”.

2) “Tecer”, “abrir”, “começar”, “costurar”, “pintar”, “unir”, “fiar” e “entrelaçar”, são os verbos que dão o sentido de uma "tecimento" coletivo de muitos autores anônimos.

3) A metáfora mais saliente parece estar ligada a "tecer". Tecido por todos, ganha forma e constrói a tenda para todos, para se abrigar do sol.

4) Na primeira estrofe “galo/galos” está presente em todos os versos. São esses galos anônimos que Colaboram na construção de sentido de movimento, de construção do tecido: “um grito de galo” que vai passando de um a outro, tecendo a manhã. Na primeira estrofe “galo/galos” não está presente nos versos 3, 6, 9 que são múltiplos de 3.

5) Meus preferidos: “se cruzem / os fios de sol de seus gritos de galo”; " se erguendo tenda, onde entrem todos"; "se entretendendo para todos".

6) Neologismo: “entretendendo”: Divertir fazendo tendas.

7) O poema é composto por 120 palavras, das quais sete palavras são "galo(s)", seis são "outro(s)" e quatro são "todos".

8) Há 484 caracteres no poema. A letra "t" é repetida 31 vezes. Somente o verso 14 não possui "t": "(a manhã) que plana livre de armação" é o amanhã sem tramas.

9) Repete o letra "g" 12 vezes espontaneamente, no entanto, a repetição da letra "t" parece intencional.

10) A palavra "outros" é repetida 6 vezes na primeira estrofe. A construção do "tecido" depende dos outros.

11) Ele não usa o "canto" do galo, mas o "grito" do galo. Grito evoca alerta, protesto (principalmente da vítima), greves e levantes.

12) O galo é retratado como o trabalhador que constrói o futuro, a tenda protetora.

13) Estaria o poeta sonhando com um futuro construido por todos, livremente, para todos, isento de "armações", maracutaias e intrigas. Um mundo verdadeiramente socialista.