A ciência mundial posou hoje de defensora dos animais. Assumiu em um documento assinado pelos maiores neurocientistas do mundo que os animais têm consciência. Palmas pra eles por ter coragem de dizer a público o que qualquer dono de animal já sabia. A verdade que amamos os animais e não esperamos gratidão de volta. Mas eles são sempre mais gratos que qualquer ser humano. Essa delícia de conviver com animais, de amá-los, alimentá-los e, secretamente, conversar com eles é um dos muitos prazeres disponíveis nessa vida. Mas voltando a ciência, um grupo de neurocientistas de instituições internacionais que inclui o Caltech, o MIT e o Instituto Max Planck, publicou um manifesto (disponível aqui) asseverando que mamíferos e aves possuem consciência. O documento foi divulgado no dia 7 de julho de 2012, em Cambridge.

Os seres humanos não são os únicos animais que têm consciência. O lado estarrecedor dessa afirmação é que entra em choque com o cristianismo. A crença bíblica que a consciência deriva do espírito, a parte invisível de Deus presente nos homens. Resta saber agora a reação das igrejas.

O manifesto não traz novas descobertas da neurociência, é uma compilação das pesquisas da área. Representa, no entanto, um posicionamento inédito sobre a capacidade de outros seres perceberem sua própria existência e o mundo ao seu redor. Para Philip Low, criador do iBrain, o aparelho que permite a leitura das ondas cerebrais do físico Stephen Hawking, "as estruturas cerebrais responsáveis pelos processos que geram a consciência nos humanos e outros animais são equivalentes, assim concluímos então que esses animais também possuem consciência. Quando seu cachorro está sentindo dor ou feliz em vê-lo, há evidências de que no cérebro deles há estruturas semelhantes às que são ativadas quando exibimos medo, dor e prazer".

Segundo os resultados obtidos pela pesquisadora Diana Reiss (uma das cientistas que assinaram o manifesto), da Hunter College, nos Estados Unidos, golfinhos e elefantes são capazes de se reconhecer no espelho. Essa capacidade é importante para definir se um ser está consciente.

Dizer que os animais têm consciência pode trazer várias implicações para a sociedade e o modo como os animais são tratados. É papel de uma sociedade civilizada transformar conclusões científicas em legislação que ajudará garantir direitos adequados para todos, inclusive àqueles incapazes de lutar por esses direitos. Assim os que amam os animais podem requerer que animais recebam direitos fundamentais, e exija que a justiça enxergue os animais como pessoas, no sentido legal. Ou seja, dar aos animais direito à integridade física e à liberdade. Temos que parar de pensar que os animais existem só para servir aos seres humanos. Eles possuem um valor intrínseco, independente de como os avaliamos.

Não significa o fim dos zoológicos ou das churrascarias, muito menos das pesquisas médicas com animais. Contudo, temos agora que apelar para nossa engenhosidade, para desenvolver tecnologias que nos permitam criar uma sociedade cada vez menos dependente do sofrimento dos animais. O mundo gasta 20 bilhões por ano para matar 100 milhões de vertebrados. Das moléculas medicinais produzidas por esse amontoado de dinheiro e mortes, apenas 6% chega a ser testada em seres humanos. Contudo, a pesquisa com animais é necessária. Nossa obrigação com os animais é fazer com que eles sejam devidamente cuidados, não sofram nem sintam dor e não tratá-los como se fossem humanos, o que seria uma ficção. Se pudéssemos utilizar apenas um computador para fazer pesquisas médicas seria ótimo. Mas a verdade é que não é possível ainda.