Era um desses sabiás, cor de mamão, desconfiado, de assobio cadenciado e de infindáveis repetições musicais de um repertório elaborado conforme a estação e a fruteira que lhe dava pouso. Cantava no mamoeiro, cantava na laranjeira, na gaiteira, no manguezal, até no ipê amarelo belo e sem frutas... Um amor de pássaro cioso de sua liberdade.

Por essa época encantou-se com a melopeia vinda da varanda. Nunca cogitara ir até lá. Mas a ladainha que chegava ao ipê amarelo era insistente. Um tanto desafinada e grosseira, uma tola imitação de suas cantigas. Mas por curiosidade abriu as asas e saltou. Um misto de queda e de voo livre. Pousou na mureta. Para marcar território, gorjeou seu maior sucesso. O mundo reverberou em silêncio.Sabiá canela fina. Sabiá de bico comprido. Sabiá bonito viciado no cheiro de milho picado. O desejo pespegara lhe a alma. O aroma o tentava. Mas para alcançar o banquete teria que avançar mais e mais no território inimigo. Foi prudente. Contou cada passo, mediu seu avanço e espionou o homem curioso a assoviar.

Quanta fartura! Agora seus olhos negros periscopiavam. Se o cheiro lhe desnudara os instintos, a visão do banquete turvou lhe a mente e afastou o medo. Num voo rasante, contra todas as amarras de sua racionalidade, pousou sobre a bacia de canjica. E saracoteou sobre a guloseima dourada.

E foi assim por muitas manhãs. Manjares cobiçados e vultos humanos inofensivos. O sorriso simpático do homem. A banana acrescentada ao almoço grátis. Por fim, desvendou o segredo: quanto mais altos os seus trinados, mais saborosos e inéditos eram as iguarias ofertadas. Então, não sentiu mais medo. Talvez ali fosse seguro e a mesa mais farta. Sem voos arriscados. Sem dias de vacas magras. Sem o sol quente nas costas. Sem ataques de inimigos.

E quando vieram as chuvas, no lugar do maná diário, estava uma linda gaiola de aço, com poleiro e água limpa, enfeitada com as mais belas, adoráveis e tentadoras comidas. Um banquete aos olhos, uma sinfonia angelical para o olfato. Embora a portinhola fosse estreita, o restante era tentador... Tão tentador. Então, num arroubo de coragem e oportunismo, se lambuzou, se empanturrou, e, por fim, se banhou no pequeno lavatório de águas cristalinas. Depois tirou uma soneca.

Assim foi ficando em proveito de uma vida segura de acordar, cantar, banhar-se, pular de poleiro em poleiro, comer, empanturrar-se... Tão saboroso. Tão confortável. Tão Seguro. Tão Cativante. E nem notou que a portinhola fora fechada por fora e trancada com cadeado.